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Segunda, 04 Junho 2012 00:00

Lições para a vida: quando não há limites para aprender

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Deficiência locomotora não impediu Aline de fazer Jornalismo e passar em primeiro lugar no mestrado.

Fotos: Giuliano Lopes

Dois professores que não escutam. O analista judiciário não enxerga. E a cadeirante, fazendo mestrado, também segue rumo ao sucesso profissional. Em comum, eles têm mais do que histórias de superação e vitória: a educação como protagonista para superar as dificuldades e realizar sonhos.

Aprovada em primeiro lugar no Mestrado em Estudos de Linguagens na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), a jornalista Aline Cristina Maziero, de 23 anos, procura levar uma vida normal apesar da paralisia cerebral e da consequente dificuldade locomotora. Ela é cadeirante.

Aline nasceu prematura de sete meses e meio, no município de Nova Andradina, interior do Estado. Seus pulmões não estavam totalmente prontos. Por conta disso, ela apresentou a SARRN (Síndrome da Angústia Respiratória do Recém-Nascido), também conhecida como Membrana Hialina.

Ela teve uma parada cardiorrespiratória e passou alguns segundos sem respirar. Uma parte do cérebro, responsável pela coordenação motora, ficou paralisada. Diagnosticada com paralisia cerebral apenas com um ano de idade, Aline demorou a se desenvolver, fez fisioterapia até os 8 anos e passou por vários hospitais.

A jovem explica que o processo de envelhecimento dos seus músculos é maior do que o das pessoas que andam normalmente. Se ela fica muito tempo sem fazer alguma atividade ou não se movimenta, acaba perdendo a mobilidade. “Não tenho como adquirir forças que nunca tive. O que posso fazer é manter a força que ainda possuo em meu corpo”.

Mesmo com paralisia cerebral, Aline sempre frequentou escolas normais, mas passou grande parte da infância sendo transferida de um colégio para outro. “Passei por todas as escolas particulares da cidade e até uma pública. Eu mudava muito de colégio, pois os professores não conseguiam lidar com uma pessoa com deficiência”, conta.

O ensino médio foi mais tranquilo, até porque várias pessoas pensavam que se ela tinha chegado até ali, certamente iria seguir em frente. Durante o processo de educação, Aline nunca foi para escolas especiais.

Indesejada - Foi então que, na metade do terceiro ano do ensino médio, ela prestou vestibular para Jornalismo na UFMS e passou. “Quando soube do resultado, fiquei extremamente feliz, até pelo fato de que minha mãe e alguns conhecidos não acreditavam que eu pudesse passar numa universidade pública”.

A mudança de Aline para Campo Grande fez com que os pais também saíssem de Nova Andradina rumo a Capital. Cristina, mãe de Aline, é professora do Estado e conseguiu a transferência; enquanto Antonio, o pai, passou a desenvolver artesanato em MDF e cerâmica, comercializando as peças na sua própria casa.

Aline encontrou vários empecilhos na universidade, principalmente por conta da estrutura física da instituição de ensino. “Havia escadas em vez de rampas e quando havia rampas elas eram íngremes e muito difíceis de lidar. Passei três anos sem ter como entrar no banheiro e como as aulas eram à tarde e à noite, meus pais tinham que gastar gasolina, vir me buscar, levar em casa e depois me trazer. E como não tinha rampa de acesso direto ao corredor central fui forçada a sempre entrar pelos fundos da universidade. A impressão que eu tinha é que a universidade não queria eu estivesse ali”.

No princípio, Aline brigou muito para garantir o acesso à universidade por meio de rampas, mas os pedidos foram em vão. “A desculpa que a universidade me dava é que antes de mim não havia cadeirante na instituição. Não é bem assim, pois eu sei de alunos que entraram antes de mim e que são cadeirantes”, diz a jovem.

Aline vê falta de preparação e até de consciência, já que muitos pensam que pessoas como ela só vão aparecer na universidade a cada dez anos. “É muito difícil alguém se sensibilizar por essa causa. As pessoas não estão acostumadas a pensar que atrás delas há cadeirantes, surdos, cegos. Muitas universidades acabam fazendo planos emergenciais que, no fim das contas, se tornam falidos e não funcionam. Do mesmo jeito que as pessoas não querem ser barradas de entrar numa universidade, eu também não gostaria de ser”, afirma.

“Sempre soube que era capaz e exijo o máximo de mim. Uma coisa em que me dou bem é o estudo. Muita gente pensa que o deficiente físico tem que ficar em casa, deitado no sofá o dia inteiro e que não é bem visto pela sociedade. E não é assim. Eu quero me qualificar para o mercado de trabalho, é o meu futuro. Não tem nada que mude isso e eu quero que me tratem como uma pessoa normal”.

Ela conta que, até agora, as coisas que se propôs a realizar deram certo. “Sou bastante consciente em relação a isso, pois o empecilho quem põe somos nós e ainda tenho muitos empecilhos em mim, mas as coisas resolvidas são maiores”, resume.

Cego desde os 13 anos, Silvio fez Direito e Jornalismo e passou em dois concursos públicos.

O melhor cego é o que quer aprender – A falta de visão não impediu Silvio Henrique Lemos, hoje com 34 anos, de fazer duas faculdades (Jornalismo e Direito), uma pós-graduação, passar no Exame da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e ser aprovado em concursos para trabalhar no TJ-MS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul) e no TRT (Tribunal Regional do Trabalho).

Silvio, que nasceu com glaucoma, perdeu a visão aos 13 anos, após ser atingido por um portão na cabeça. Ele passou por mais de dez cirurgias, mas ficou completamente cego em ambos os olhos.

Em 1999, ele se formou em Jornalismo na UFMS e no ano seguinte em Direito na UCDB (Universidade Católica Dom Bosco). A pós-graduação em Direito do Trabalho veio em 2007 pela Unaes – Centro Universitário de Campo Grande.

Apaixonado pelo rádio, seu sonho sempre foi o de ser jornalista, mas na universidade conheceu duas colegas que também haviam sido aprovadas no curso de Direito. “Elas decidiram fazer os dois cursos, o que também me motivou e encorajou. Se elas poderiam, eu também poderia. Não era por conta da deficiência visual que isso não iria ocorrer”, afirma.

O desempenho de Silvio pode dar a impressão de que foi fácil estudar. “Tinha ciência das dificuldades, mas com o apoio da família e de alguns colegas consegui um excelente desempenho e concluí os dois cursos em cinco anos”, diz. “Nunca fiquei de dependência em nenhuma disciplina, modéstia à parte”, ressalta.

No entanto, ele teve que superar obstáculos como a ausência de material didático em Braille. Ele conta que usou o método apenas no ensino médio. “Por ser muito complexo e extenso, deixei um pouco o Braille de lado, sem falar que material didático no sistema é quase inexistente, especialmente no ensino superior”, explica.

A solução encontrada foi gravar as aulas em fitas cassete para escutar depois. Na hora do estudo, familiares e colegas liam os textos para ele. As provas eram orais. “Esse método de provas me forçava a estudar bastante, pois considerava constrangedor o professor indagar e eu não saber a resposta”, continua.

Na época (1996-2000), o computador não era acessível aos deficientes visuais, conta Silvio. “Apenas nos anos finais dos cursos comecei a ter contato com o computador e a utilizar o programa que faz a leitura ao cego por meio de um sintetizador de voz. Depois que me integrei à ferramenta ficou mais fácil o estudo, pude fazer pesquisas na internet e digitar meus trabalhos”.

Dias após receber o diploma, ele passou no Exame de Ordem. Um mês depois foi aprovado no concurso do Tribunal de Justiça. Ele trabalhou na assessoria de imprensa da Corte por três anos.

Depois, o bacharel em Jornalismo e Direito passou na seleção para Analista Judiciário na Justiça do Trabalho, ficou na assessoria de imprensa por um ano e meio e hoje está lotado no Fórum Trabalhista de Campo Grande.

Ele presta orientações jurídicas aos cidadãos, principalmente aos menos favorecidos. “É algo bastante gratificante. É esse o ideal de justiça que me atrai, já que o Estado não cumpre com sua obrigação de fazer com que a Defensoria Pública da União atue na área trabalhista”, afirma.

Silvio ainda encontra tempo e disposição para escrever artigos “para não perder o hábito de jornalista, fugindo um pouco do texto juridiquês (sic)”. “Desempenho minhas funções com muita independência e autonomia. Sou feliz e bem sucedido. Conquistei o respeito das pessoas demonstrando minha capacidade, aliada a grande dose de força de vontade”.

Ele está casado há seis anos e tem uma filha de 5 meses. As duas enxergam. Ele afirma que não sente falta da visão, exceto para dirigir e ver futebol.

“O estereótipo de cego presente na sociedade é aquele dependente, que fica no sinal de trânsito ou na feira pedindo esmola, tocando uma sanfoninha, digno de dó. Quando deparam com um cego com o meu perfil, natural se surpreenderem”, afirma.

Elisa é surda e cursa Letras/Libras numa universidade pública. Ela defende prova sinalizada no vestibular.

Estrangeira no próprio país - O sorriso estampado no rosto de Elisa Ferreira Borges, 24 anos, tem um motivo especial: em julho deste ano vai se formar no curso Letras/Libras (Língua Brasileira de Sinais) pela UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados).

Ela é totalmente surda e trabalha há sete anos como professora no CAS/MS (Centro de Capacitação de Profissionais de Educação e de Atendimento às Pessoas com Surdez de Mato Grosso do Sul). A entrevista foi feita com a ajuda do intérprete Claudio Luiz Vasques dos Santos.

“O ensino na universidade é muito puxado, mas me sinto recompensada”, conta Elisa, por meio de sinais. Ela mora em Campo Grande e vai uma vez por mês a Dourados para estudar.

Elisa explica que as aulas começam em uma sexta-feira pela manhã e só terminam no domingo. Algumas provas são aplicadas por teleconferência. “Por ser um curso à distância, o sistema televisivo é muito disseminado”.

A missão dela na área da educação começou em Campinas (SP), quando iniciou os estudos. Ela diz que o processo de inclusão foi difícil, pois era a única aluna surda da escola e sofria com a falta de intérpretes. “Não entendia nada e isso me incomodava. Nunca soube fazer a leitura labial, só tenho afinidade com a Libras. Apesar da deficiência, minha família sempre cobrou uma dedicação aos estudos”.

Cheia de dúvidas quanto ao futuro em meio à mudança com a família para Campo Grande, Elisa foi se adaptando como pôde às escolas por onde passou, contando com o apoio do Ceada (Centro Estadual de Atendimento ao Deficiente da Audiocomunicação).

Aos 20 anos, Elisa fez a prova da UFGD e passou. No ensino superior, teve mais dificuldades voltadas ao relacionamento com as pessoas. Ela recebe a ajuda de intérpretes, que são disponibilizados pela própria instituição de ensino, além de ter aulas em Libras.

Elisa sugere que as faculdades comecem a implantar o sistema de videoconferência nas salas de aula para poder ajudar os surdos. “Sou professora e trabalho nas escolas ensinando Libras aos próprios surdos, por isso adapto as aulas e materiais para que os alunos consigam aprender da mesma maneira que os ouvintes”.

Em relação ao vestibular, a jovem afirma que as universidades poderiam começar a fazer um processo diferenciado para os surdos, começando pela prova de redação. Ao contrário do que muitos pensam, a Libras não é uma tradução da língua portuguesa para os deficientes auditivos. Na verdade, o idioma das pessoas surdas no Brasil tem sua própria gramática para combinar palavras e frases.

Ao ler e escrever, os ouvintes em geral recorrem à memória auditiva (vão se lembrando do som das palavras), o que é impossível para as pessoas surdas de nascença, daí a dificuldade delas em elaborar e escrever uma redação em língua portuguesa.

“A nossa comunicação é visual. A língua portuguesa é escrita e é oral e as pessoas vão aprendendo de tanto falar. É estranho para a sociedade entender que a redação é diferente para nós. Por isso os surdos estão lutando para ter uma prova sinalizada”, explica Elisa.

Os pais e irmãos de Elisa são ouvintes. Desde cedo, a mãe e uma irmã acabaram se tornando as intérpretes dela. “Sempre fui uma pessoa curiosa. Acredito que estou no caminho certo. Prefiro não planejar meu futuro, mas deixar as coisas acontecerem. Quem sabe um mestrado”, arrisca.

Milton também é surdo, sofreu com preconceito, mas conseguiu concluir duas faculdades.

Vergonha - Milton Fernando Leonel Terrazas, de 33 anos, é formado em Tecnologia de Processamento de Dados na Faculdade Estácio de Sá de Campo Grande e em Teologia no Unigran (Centro Universitário da Grande Dourados), além de ser instrutor de Libras.

O teólogo conta que a caminhada rumo aos dois diplomas foi árdua, inclusive tendo sofrido preconceito, mas ressalta que valeu a pena. Ele também é totalmente surdo de nascença. A entrevista foi feita com a ajuda da intérprete Tamires Bessa da Silva.

Hoje, a maior dificuldade que um surdo encontra ao ingressar em uma faculdade é justamente a ausência de intérpretes. Ele conta que o surdo tem uma cultura diferente e, às vezes, a falta de comunicação atrapalha bastante.

“Muitas vezes, até o intérprete tem vergonha de fazer certos tipos de sinais. O pior é quando os amigos conversam sobre algo e o surdo não entende. Na maioria das vezes, os surdos boiam nos papos. É a mesma situação quando num ambiente de conversa entre surdos entra alguém que é ouvinte e automaticamente fica perdido”, explica.

Milton começou a cursar a primeira faculdade, de Tecnologia em Processamento de Dados, aos 22 anos. O curso, que tem duração de três anos, foi concluído em cinco. “Na minha turma eu era o único surdo e por isso acabei reprovando três vezes. Foi difícil eu me formar, até mesmo porque muita gente não acredita nas pessoas surdas. Em alguns momentos eu não contei com o apoio de intérpretes e mesmo contando com a ajuda deles, tinha vezes que não havia sinal que correspondesse”.

Já a segunda faculdade, de Teologia, foi mais fácil, segundo Milton, que na época tinha 28 anos. Como frequentava uma igreja que oferecia serviços de intérpretes durante os cultos, a familiarização com certos sinais fez com que o surdo concluísse o curso no tempo certo. “Foi bem diferente da primeira faculdade em que os professores tinham medo de conversar comigo. Os próprios professores não acreditavam que eu conseguiria dar sequência ao curso”.

Para o surdo, a contextualização da língua é um processo complicado, fator que desencadeou a desistência de vários intérpretes em acompanhá-lo às aulas. De acordo com Milton, no vestibular sempre um intérprete vai junto com o surdo, mas quando ele entra na faculdade, os intérpretes vão desistindo mês a mês. Só na primeira faculdade, Milton contou com a colaboração de seis intérpretes, até achar um que permanecesse até o fim.

“As universidades têm que disponibilizar intérpretes aos alunos surdos. Quando estava cursando Teologia, a faculdade não disponibilizou intérprete e por isso comecei a pagar um com o meu próprio dinheiro, até que um da igreja que eu frequentava aceitou me ajudar como voluntário. Isso permitiu que eu continuasse os estudos”, disse.

Milton é casado com uma surda, que atualmente faz Letras no Instituto Libera Limes, e tem dois filhos com ela. Concursado em um hospital em Campo Grande, há dois anos ele foi remanejado para o CAS/MS, onde dá aulas de Libras.

Sem cotas – Não há nenhuma lei estipulando reserva de vagas nas universidades para alunos com deficiência, embora exista sistema de cota para ingresso no serviço público e a obrigatoriedade pelas grandes empresas privadas de contratar as pessoas com algum tipo de limitação.

Ainda assim, Mato Grosso do Sul possui 56 alunos com necessidades especiais matriculados no Ensino Superior, em cursos de graduação presencial. Conforme o MEC (Ministério da Educação), nove estão matriculados em universidades ou faculdade públicas e 47 em particulares.

A presença dessas pessoas no ensino superior ainda é raridade, se levado em conta o universo de pessoas com algum tipo de deficiência. No ano retrasado havia em todo o Estado 4.917 pessoas com cegueira total, 68.440 com grande dificuldade para enxergar e 336.223 com deficiência visual em menor grau, de acordo com os Resultados Gerais da Amostra do Censo 2010.

Além disso, Mato Grosso do Sul possuía 3.609 pessoas com surdez total, 20.811 tendo grande dificuldade para escutar e 83.190 apresentando alguma dificuldade para ouvir.

Com relação à deficiência motora, existiam 8.886 pessoas que não conseguiam de modo algum fazer os movimentos, 42.895 com grande dificuldade e 98.410 apresentando alguma dificuldade. O censo revelou ainda haver 32.488 pessoas com deficiência mental ou intelectual no Estado.

Em todo o País eram 45,6 milhões de pessoas com pelo menos uma das deficiências investigadas (visual, auditiva, motora e mental), representando 23,9% da população.

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